Capítulo 1
Minha irmã fugiu na noite anterior ao casamento.
Então me vestiram com o véu dela e me mandaram no lugar dela.
“Ninguém olha duas vezes para uma noiva atrás de um véu”, disse a Signora, prendendo a renda sobre o meu rosto. “Você nasceu pra servir de substituta. Já estava na hora de isso valer a pena.”
Estavam casando Bianca com a família Falcone para encerrar uma guerra. Os Falcones — um nome que as pessoas nesta cidade só pronunciavam com a porta fechada. A família que passara vinte anos revirando o lugar, caçando algo que tinham perdido.
Acontece que estavam me caçando.
Ainda não sabiam disso. Nem eu.
Eu tinha sido a sombra de Bianca a vida inteira. Mesma altura, o mesmo cabelo escuro. Os Marchetti me acolheram ainda bebê e me criaram para uma única coisa — ser a filha que eles podiam se dar ao luxo de perder. Me treinaram para andar como ela, assinar o nome dela, sentar na cadeira dela quando uma reunião cheirava a armadilha. Quando Bianca não estava a fim de dar as caras, eu vestia o rosto dela por ela.
Então, na noite em que ela saiu pela janela do quarto, ninguém entrou em pânico por muito tempo.
A Signora me encontrou na cozinha dos fundos, com as mãos na água do tanque. Ela me puxou pela gola e me examinou como quem confere um casaco à procura de manchas.
“Você serve”, ela disse.
Uma hora depois, eu estava no banco de trás de um carro, usando o vestido de noiva de Bianca, com o véu grudando nas minhas bochechas, dois homens da família no banco da frente sem dizer nada.
“Lembre-se”, disse a Signora ao meu lado. “Você não fala. Você só concorda com a cabeça. Deixa o padre fazer a parte dele, assina o nome dela e mantém os olhos baixos.”
“E depois?”, perguntei.
“Depois não é da sua conta.”
Mas eu sabia o que “depois” significava. Os Falcones não eram uma família da qual você saía andando de volta. Bianca tinha fugido para não descobrir. Estavam me mandando para descobrir por ela.
Olhei para o meu pulso. Sob o punho de renda, numa correntinha fina, estava a única coisa que era minha — um pequeno medalhão de prata que minha mãe me deixou antes de morrer. A Signora já tinha me dito umas cem vezes para mantê-lo escondido. Lixo, ela chamava. Mas era tudo o que eu tinha de uma mulher de quem eu nem conseguia me lembrar, então nunca tirei.
“Para de mexer nessa coisa”, ela ralhou, e eu abaixei as mãos.
O carro desacelerou. Um muro surgiu da escuridão, mais alto do que qualquer um que eu já tinha visto, e um portão todo trabalhado com pássaros de ferro. Falcões. Dois homens estavam sob a luz, imóveis como o ferro acima deles.
Meu estômago revirou.
“Desce”, disse um deles.
A Signora desceu primeiro e alisou o casaco, só sorrisos agora. “Ela é um pouquinho tímida”, disse aos homens. “Nervosismo de casamento. Vocês sabem como as noivas ficam.”
Eles não sorriram de volta. Um deles me olhou por um instante a mais do que devia, então saiu do caminho.
Ela pegou meu braço e me conduziu para dentro, as unhas encontrando a pele macia acima do meu cotovelo.
“Se comporte”, ela disse entre dentes. “A gente não sai daqui sem um casamento. Entendeu? Você estraga isso, e não vai sobrar teto nenhum pra você rastejar de volta pra debaixo.”
O vestido arrastava no cascalho. Mais à frente, a casa estava iluminada de dourado, portas abertas, cheia de gente que achava que estava prestes a ver Bianca Marchetti entrar.
Dezoito anos eu tinha passado usando o rosto de outra pessoa. Ficando onde ela deveria ficar. Recebendo tudo o que vinha para ela para que ela nunca precisasse receber.
Na porta, eu parei.
A Signora puxou. Eu não me mexi.
Ela puxou com mais força, as unhas cravando, sibilando o nome da minha irmã para mim por entre os dentes.
“Esse não é o meu nome”, eu disse. Minha voz saiu baixa e áspera, crua — mas saiu. “Eu não sou ela. E eu não vou fazer isso.”
