Capítulo 2

A Signora não discutiu comigo na porta.

Ela sorriu para os homens, disse que a noiva precisava de um minuto para retocar o rosto e me conduziu para um quartinho ao lado do corredor. Um espelho, duas cadeiras, uma fileira de velas acesas para os santos. O tipo de cômodo que guardavam para noivas.

No segundo em que a porta se fechou, ela me bateu.

O tapa virou minha cabeça de lado. Meus ouvidos zuniram. Senti gosto de sangue do lado de dentro da bochecha.

— Você não tem o direito de fazer isso — ela disse. — Não hoje à noite.

Ela me forçou a sentar na cadeira e atacou meu cabelo, arrancando os grampos, torcendo tudo de volta do jeito que Bianca usava. Mãos rápidas, ásperas. Ela já tinha feito isso comigo umas cem vezes. Fazer eu parecer com Bianca. Fazer eu desaparecer.

— Fica quieta.

— Eu não vou fingir que sou ela. — Tentei me levantar. Ela me empurrou de volta para baixo.

— Você finge que é ela desde os seis anos — ela disse. — Não vai criar consciência agora.

Ela molhou um pano e esfregou meu rosto com força, me limpando como se eu fosse uma mancha no vidro. Virei o rosto, e ela segurou meu queixo e virou de volta.

Agarrei a borda da mesa para me erguer de novo — e ela fechou a mão em volta do meu pulso e apertou até os ossinhos rangerem uns contra os outros.

Eu fiquei imóvel.

Ela sabia o que minhas mãos eram para mim. Todo mundo naquela casa sabia, mesmo quando fingiam que não. O ofício da minha mãe, a única coisa que ela me deixou além de um rosto de que eu não conseguia me lembrar. Eu consertava coisas. Relógios, fechos, as pecinhas quebradas que ninguém mais tinha paciência para mexer, sozinha à noite, quando o trabalho era meu e de mais ninguém.

Era a única parte de mim que nunca tinha pertencido a Bianca.

— Continua lutando comigo — disse a Signora, bem baixo — e eu vou garantir que essas mãos nunca mais segurem nada mais fino do que um esfregão. Duvida de mim.

Ela me soltou. Eu coloquei as mãos no colo e não me mexi.

— Pronto. — Ela voltou ao meu cabelo, quase gentil agora. — Viu? Não foi tão difícil.

Eu encarei as velas e segurei as lágrimas onde estavam.

— Você sempre acha que existe um “você” aí dentro em algum lugar. — Ela falava enquanto trabalhava, do jeito que se fala por cima de um casaco que se está escovando. — Não existe. Nunca existiu. Você nasceu para ficar onde ela não fica. Você é só isso. Engole e a sua vida fica mais fácil.

— Então por que não mandar ela? — eu disse. — Se eu não sou nada, manda nada. Deixa ela ir ser noiva de verdade, pelo menos uma vez.

O grampo que ela segurava parou a um centímetro do meu couro cabeludo.

— Porque nada não faz o que mandam — ela disse, agora baixa, e enfiou o grampo com força o bastante para arder. — Ela nunca fez. Você sempre fez. Essa é a única diferença que já importou nesta casa.

Eu não tinha resposta para isso. Era verdade, e ela sabia que era verdade, e dizer em voz alta não fazia nenhuma de nós se sentir melhor.

Ela nem disse para ser cruel. Disse sem emoção, como um fato que ela tinha conferido duas vezes. Essa era a parte que me esvaziava por dentro. Dezoito anos, e eu nunca tinha entrado num cômodo sendo eu mesma. Eu nem sabia como isso seria.

Ela prendeu o véu de volta sobre o meu rosto e deu um passo atrás para conferir o trabalho no espelho.

— Perfeito — ela disse. Para o vidro. Não para mim.

Uma batida na porta.

Ela abriu só uma fresta. Um homem estava no corredor. Largo, terno escuro simples, um rosto que tinha parado de achar qualquer coisa interessante fazia muito tempo. Um dos Falcones.

— A noiva está pronta?

Ele não olhou para mim como se eu fosse uma pessoa. Olhou como se eu fosse uma caixa que já devia estar no caminhão.

— Pronta — disse a Signora.

E por um segundo idiota, alguma coisa se ergueu no meu peito. Ele era Falcone. Era desta casa. Talvez alguém aqui realmente olhasse para mim e visse que eu estava errada. Visse que eu não era ela.

Ele lançou um olhar. Entediado.

— Tragam ela.

Só isso. Um lascado no acordo de alguém, levado até a mesa na hora certa.

Ninguém naquela casa sabia quem eu era. Ninguém ia saber. E a pior parte, a parte que me raspou por dentro quando ele se virou para esperar no corredor — eu também não sabia.

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