Capítulo 3

O homem não me levou até a cerimônia.

Ele me puxou para uma sala ao lado do salão principal — menor, com uma mesa, sem convidados — e fechou a porta. Em seguida, levantou meu véu para dar uma olhada na noiva que a família dele estava prestes a receber.

Ele ficou imóvel.

— Você não é ela.

Eu não fui rápida o bastante para responder. Ele tinha visto as fotografias de Bianca. Todo mundo no mundo dele tinha. E eu era parecida — o mesmo cabelo, o mesmo porte, dezoito anos sendo parecida —, mas ali, sob a luz, eu não era Bianca Marchetti, e ele soube disso num segundo.

A expressão dele mudou. Não para confusão. Para ofensa.

— Mandaram uma falsa. — Ele disse devagar, como se não acreditasse na audácia. — O Marchetti vestiu uma criada e mandou ela para os Falcones.

— Eu não… — tentei. — Eles me obrigaram a vir, eu sou um quebra-galho, eu não…

As costas da mão dele acertaram minha boca. Minha cabeça virou de lado num estalo. Sangue de novo, quente contra os dentes.

— Não — ele disse. — Não abra essa boca de novo.

Essa era a pior parte. A única coisa verdadeira que eu tinha para dizer era que eu não era ninguém. Um nada que tinham enfeitado para enganá-lo. E não ser ninguém era exatamente a coisa que fazia você se machucar numa casa como aquela.

Ele pegou minha mão direita e a virou na dele, quase com cuidado, examinando os dedos.

— O Marchetti acha que a gente não sabe a diferença — ele disse. — Vamos mandar de volta para eles uma coisa que eles entendam.

Eu entendi o que ele queria dizer um segundo antes de ele fazer. Tentei me afastar. Ele não soltou.

Houve um estalo, pequeno e definitivo.

Eu gritei. Não consegui evitar. Minha mão direita — minha única mão boa, a única coisa que algum dia foi minha — agora dobrava do jeito errado, os dedos indo para onde dedos não vão.

Eu ainda estava gritando quando a outra mão dele se fechou ao redor da minha garganta e apertou, só o suficiente.

— Quietinha — ele disse. — O don está passando.

O cômodo pareceu inclinar. Quando ele soltou, eu não conseguia puxar um fôlego inteiro, não conseguia empurrar a voz além de um chiado rasgado, áspero. O que quer que eu ainda tivesse para dizer foi embora com ele.

A porta se abriu.

Um homem entrou, e o quarto ficou silencioso ao redor dele antes mesmo de ele dizer uma palavra. Casaco escuro, rosto duro, aquele tipo de imobilidade que fazia todo mundo encolher. Ele não precisava dizer quem era. O jeito como o meu homem se endireitou me contou tudo.

Esse era aquele com quem estavam me casando. O Falcone de quem a cidade inteira falava em voz baixa.

Ele olhou a sala. Olhou para mim no chão — mão arruinada, vestido rasgado, sangue na boca, nada parecido com a noiva que tinham prometido.

— O que é isso. — Seco. Nem era bem uma pergunta.

— O Marchetti mandou uma substituta — o outro homem disse depressa. — Uma falsa, chefe. Uma afronta. Eu estava resolvendo.

O don me olhou por meio segundo, do jeito que se olha para uma mancha que outra pessoa vai ter de limpar.

— Mandem isso de volta para eles — ele disse. — No estado em que estiver.

Ele se virou para ir embora.

Não.

Eu não conseguia falar. Não conseguia me levantar. Minha mão era inútil e minha voz tinha sumido e ele estava indo embora, e não restava nada em mim para atirar contra ele —

exceto a única coisa que era minha.

Com a mão esquerda, arranquei a corrente do meu pulso e arremessei. Com força. Na direção dele.

O pequeno relicário de prata bateu no mármore e deslizou, tilintando pelo chão, até parar encostado no sapato dele.

Ele parou.

Olhou para baixo. Para o relicário aos pés. Para o brasão pequeno e gasto marcado na prata.

Então ele se agachou e pegou o objeto, e um homem como aquele não se agacha por coisa alguma.

Ele o virou uma vez entre os dedos. Olhou o verso. E, quando levantou a cabeça desta vez, estava me encarando como se já tivesse me visto em algum lugar antes.

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