
Visita íntima
Beatriz Freitas · Concluído · 136.4k Palavras
Introdução
Sem saída, Rubi e sua prima Vanessa se veem diante de uma proposta suja, cruel, mas tentadora: uma delas deve aceitar fazer visitas íntimas ao temido e poderoso chefe do morro o homem conhecido apenas como Rei. Nessa encruzilhada entre o amor e o sacrifício, entre a dignidade e o desespero, uma escolha precisa ser feita. E o que começa como um acordo impensável, pode acabar despertando segredos, paixões perigosas e um caminho sem volta.
Capítulo 1
O sol rachava o crânio. A mochila pesava nas costas e o tênis parecia quase derreter no asfalto quente da ladeira. Subir o morro naquele calor era castigo, mas era a minha vida. E se eu parasse por preguiça, já teria morrido no primeiro verão.
Respirei fundo, tirei a blusa que grudava no corpo e fiquei só de sutiã. Dane-se. Aqui todo mundo já me conhecia mesmo.
Passei na frente do ponto de mototáxi como fazia todos os dias. E, como todos os dias, vieram os assobios, os “E aí, princesa?” e as cantadas sem nenhum pudor.
Resolvi parar.
— Vocês podiam me dar um bonde até lá em casa, né? — fiz bico, jogando charme de propósito.
Metade daqueles caras cresceu comigo; alguns estudaram comigo na mesma escola. Era zoeira, mas também era teste. Eu sempre gostei de provocar até ver onde ia dar.
— Três conto a corrida — disse João, sorrindo com aquele jeitão debochado que eu conhecia tão bem.
— Credo, faz uma boa ação aí e me leva, por favor, João!?
— Faço, pô. Mas depende do que eu vou ganhar em troca!
— Vai ganhar um abraço bem apertado. Quer mais que isso? — apoiei a mão na cintura, percorrendo ele com o olhar devagar.
— Vou poder colocar a mão na tua bunda?
Cheguei bem pertinho, até ele prender a respiração, e sussurrei bem baixinho:
— Vai poder colocar a mão onde quiser… se me levar em casa.
Me afastei devagar e vi ele todo sem graça, sem saber o que dizer. Sorri de canto.
— Iti, que fofinho.
— Fofo o caralho! — reclamou, tirando minha mão do rosto dele e me puxando de leve para mais perto. — Quer ver uma coisa fofa? Eu te mostro agora mesmo.
João era meu amigo desde os tempos de escola. Saiu cedo das salas de aula para trabalhar e ajudar a sustentar a casa. Se não fosse a vida tendo sido dura com ele, tenho certeza que teria se formado junto comigo. Era um daqueles que a vida bateu forte, mas nunca conseguiu quebrar.
— Sai dessa, maluco! Me larga — empurrei ele de leve, rindo. — Tava só brincando, sou da igreja, sabia?
— Tu atiça, deixa todo mundo doido e depois foge. Mó filhadaputagem!
— Até parece que não me conhece, João. Tu sabe muito bem que eu sou dessas!
— Vai se fuder, Rubi! — falou parecendo bravo, mas eu só ri mais ainda.
Me aproximei de novo e o abracei com toda a força, enquanto ele tentava, sem muito sucesso, me soltar.
— Não fica bravo comigo, mô! Não vou largar de jeito nenhum.
— Na moral, tu é chata pra caralho!
— Sou chata, mas uma chata que você ama! — sorri de frente para ele.
— Quem foi que te iludiu desse jeito todo?
— Meu amor por você é real! Sem mim a tua vida seria um tédio sem fim.
— Além de maluca, é iludida!
— Vai à merda! — mostrei o dedo médio para ele, ainda rindo. — E aí, vai me levar ou não?
— Até ia… mas teu namorado acabou de chegar — disse ele, apontando com a cabeça para trás de mim.
Revirei os olhos com força.
— Tá vendo aliança aqui? Não, né? Então tá doido, amor! Não tenho dono não.
Quando finalmente olhei para trás, lá estava ele: Tuka. Camisa regata marcando cada músculo, tatuagem subindo pelo pescoço, cigarro no canto da boca e aquele olhar pesado de quem queria me furar com os olhos. Dei de ombros. Fiz questão de ignorar.
— Tu gosta de provocar ele, né? — João murmurou, balançando a cabeça.
— Gosto de quê? — perguntei, jogando o cabelo para trás com um movimento só.
— Tu sabe muito bem do que eu tô falando.
— A gente é só amigo, João. Ele que lute com os fantasmas dele.
— Então fala isso pra ele! O cara tá quase soltando fogo pelas ventas de tanto ciúme.
— Que pena! — sorri maliciosa. — Melhor eu ir mesmo. Tu tá morrendo de fome e eu não quero atrasar o teu serviço.
— Tu é uma diaba mesmo!
— Vou considerar isso um grande elogio, mô — o abracei mais uma vez. — Tchauzinho.
— Filha da puta! Esse cara vai acabar me matando!
— Vai nada, relaxa! — pisquei para ele e saí andando, fazendo questão de ignorar completamente a presença do Tuka ali parado.
Enfiei a camisa pela alça da mochila e amarrei o cabelo num coque todo malfeito. O calor parecia me derreter por dentro e por fora. Puta que pariu, que dia quente.
E então eu ouvi. O barulho da moto parando bem do meu lado. Nem precisei olhar para saber quem era.
Era ele. Tuka.
O motor silenciou de repente, e aquele som me fez gelar dos pés à cabeça, mesmo debaixo daquele sol escaldante.
Aquela presença me dava nos nervos. Não era só porque ele era bonito, ou perigoso, ou porque todo mundo no morro tinha medo dele. Era porque ele me encarava como se soubesse de todos os meus segredos até aqueles que nem eu mesma sabia que carregava dentro de mim.
Mas antes que ele pudesse abrir a boca para falar qualquer coisa, a minha mente já tinha voado para longe. Longe da moto, do calor insuportável, das brincadeiras com o João.
Ela foi direto para o quarto da minha madrinha.
Para o resultado do exame que ela fez questão de esconder de todo mundo.
Para aquela palavra dura, que a gente finge que não escuta, mas que está ali, pesando no ar: câncer.
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Última Atualização: 8/4/2026
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