
O ALFA E A COMPANHEIRA
VAL VEIGA · Atualizando · 56.2k Palavras
Introdução
Tudo muda quando uma jovem humana cruza seu caminho.
O vínculo da companheira predestinada desperta no instante em que seus olhares se encontram. Mas ela desconhece a existência de lobos, alcateias e guerras antigas. Para ela, Dário é apenas um homem misterioso e irresistível. Para ele, amá-la pode significar condená-la à morte.
Enquanto inimigos ressurgem das sombras e antigas traições ameaçam destruir tudo o que construiu, Dário precisará decidir entre obedecer às leis da alcateia ou seguir o chamado do coração.
Em um mundo onde o sangue dita as regras, apenas um amor verdadeiro será capaz de desafiar o destino. Um romance intenso, repleto de paixão, mistérios, ação e reviravoltas, que vai prender você do início ao fim.
Capítulo 1
A floresta permanecia mergulhada em uma escuridão quase absoluta.
A lua cheia brilhava acima das copas das árvores, mas sua luz prateada era incapaz de atravessar a muralha de galhos centenários. Apenas pequenos feixes iluminavam o chão coberto de folhas secas, onde um enorme lobo negro corria com todas as forças que possuía.
O cheiro de sangue já impregnava o ar.
Atrás dele, passos.
Muitos passos.
Humanos.
— ENCONTREM O ALFA! — uma voz masculina rugiu em meio à mata.
O estampido de um tiro rompeu o silêncio.
Depois outro.
E mais outro.
Os pássaros levantaram voo assustados.
Os animais fugiram para longe.
A floresta inteira parecia gritar.
— EU VOU MATAR VOCÊ! — a mesma voz voltou a ecoar. — VOU ACABAR COM A SUA LINHAGEM!
Meu pai não diminuiu a velocidade.
Mesmo sabendo que não havia saída, continuou correndo.
Ele não fugia para salvar a própria vida.
Fugia para salvar a nossa.
Minha mãe corria ao lado dele, igualmente transformada em loba. Seus olhos dourados brilhavam de ódio enquanto guiava meus irmãos e a mim pela mata.
Eu ainda era apenas um garoto.
Não compreendia completamente o motivo daquele massacre.
Sabia apenas que os humanos nos caçavam.
E que aquela noite mudaria tudo.
Meu pai parou de repente.
Virou-se para nós.
Mesmo em sua forma lupina, consegui enxergar a tristeza estampada em seus olhos.
Ele se aproximou lentamente.
Encostou o focinho em minha cabeça.
Depois fez o mesmo com meus irmãos menores.
Era uma despedida.
Sem dizer uma única palavra, ele olhou para minha mãe.
Ela compreendeu imediatamente.
— Proteja nossos filhos.
Era isso que aquele olhar dizia.
Minha mãe recusou com um simples balançar de cabeça.
Ela jamais permitiria que ele enfrentasse os humanos sozinho.
Mas o alfa insistiu.
Ele era o líder da Alcateia Satomi.
Seu dever era lutar até o último segundo.
Minha mãe respirou fundo.
Depois nos empurrou para trás de um enorme carvalho.
— Não façam barulho.
Sua voz ecoou dentro da nossa mente através do vínculo da alcateia.
— Não importa o que aconteça... vocês não podem sair daqui.
Segurei a mão do meu irmão mais novo.
Ele tremia.
O outro chorava em silêncio.
Eu queria dizer que tudo ficaria bem.
Mas estaria mentindo.
Poucos segundos depois...
O inferno começou.
Meu pai rugiu tão alto que a própria floresta pareceu estremecer.
Em seguida, correu na direção dos caçadores.
Minha mãe fez o mesmo.
Os outros lobos da alcateia surgiram entre as árvores para defender seu alfa.
Os primeiros humanos caíram.
As garras rasgavam carne.
Presas atravessavam pescoços.
O sangue cobria as folhas.
Mas eles eram muitos.
Muito mais numerosos.
Armas de prata.
Flechas.
Facas.
Bombas.
Tudo preparado para exterminar uma alcateia inteira.
Os tiros ecoavam sem parar.
Vi um dos nossos guerreiros cair.
Depois outro.
Mais um.
Até que...
Meu pai foi cercado.
Mesmo ferido, continuava lutando.
Seu pelo negro estava completamente vermelho.
Ainda assim, ele não recuava.
Foi quando o homem que liderava os caçadores apareceu.
Alto.
Vestido com um longo casaco escuro.
Os olhos carregavam um ódio que parecia existir havia séculos.
Ele apontou uma arma feita especialmente para matar lobos.
Sorriu.
E atirou.
O disparo atravessou o peito do meu pai.
O alfa caiu de joelhos.
Tentou se levantar.
Não conseguiu.
Minha mãe soltou um uivo tão doloroso que senti meu coração partir ao meio.
Ela correu até ele.
Mas nunca conseguiu alcançá-lo.
Outros disparos acertaram seu corpo.
Mesmo assim, continuou avançando.
Protegendo o companheiro até o último instante.
Quando finalmente caiu ao lado dele...
Os dois ainda conseguiram tocar os focinhos uma última vez.
Então...
Silêncio.
O vínculo da alcateia desapareceu.
Naquele instante...
Eu soube.
Eles haviam partido.
Levei a mão até a boca para impedir um grito.
As lágrimas escorriam sem que eu percebesse.
Meu lobo enlouquecia dentro de mim.
"Mate todos eles."
Era isso que ele repetia.
"Vingue nossos pais."
Cada fibra do meu corpo queria correr.
Atacar.
Morrer lutando.
Mas lembrei das últimas palavras da minha mãe.
Proteja seus irmãos.
Olhei para os dois pequenos encolhidos ao meu lado.
Eles dependiam de mim.
Se eu morresse...
Nossa linhagem acabaria naquela noite.
Respirei fundo.
Engoli toda a dor.
Toda a raiva.
Todo o ódio.
E fiz um juramento.
— Eu vou sobreviver.
Olhei novamente para o homem que matou meus pais.
Gravei seu rosto na memória.
Cada cicatriz.
Cada detalhe.
Cada expressão.
— Um dia...
Minha voz saiu em um sussurro.
— Eu vou encontrar você.
— E quando esse dia chegar...
— Vou fazer você pagar por tudo.
Meu nome é Dário Satomi.
Tenho trinta anos.
E hoje sou o Alfa da Alcateia Satomi.
Os anos passaram.
Reconstruímos nossa alcateia praticamente do zero.
Protegi meus irmãos.
Treinei todos os dias.
Aprendi a controlar meu lobo.
Tornei-me mais forte.
Mais rápido.
Mais impiedoso quando necessário.
Todos dentro da alcateia me respeitam.
Alguns até me temem.
Mas nenhuma conquista conseguiu apagar aquela noite.
Ainda vejo meus pais morrendo quando fecho os olhos.
Ainda escuto os tiros.
Ainda sinto o cheiro do sangue.
E nunca esqueci o rosto do homem que comandou o massacre.
Meu juramento continua vivo.
Um dia encontrarei aquele humano.
E quando isso acontecer...
Ele implorará pela morte.
Nossa alcateia vive escondida no coração da floresta.
Cabanas espalhadas entre árvores gigantes.
Riachos cristalinos.
Campos de treinamento.
Casas construídas com madeira resistente.
Tudo protegido pelos nossos guerreiros.
Vivemos em paz.
Pelo menos por enquanto.
Ainda evitamos qualquer contato desnecessário com humanos.
Depois do massacre, aprendemos que confiar neles pode custar vidas.
Mesmo assim...
Alguns dos mais jovens começaram a questionar nossas tradições.
Naquela manhã, sentei perto do lago da aldeia.
O espelho d'água refletia o céu azul.
Peguei uma pequena pedra.
Arremessei.
Ela quicou algumas vezes antes de desaparecer.
Minha mente estava distante.
Até ouvir passos conhecidos.
Dois enormes lobos correram na minha direção.
Assim que chegaram perto, voltaram à forma humana.
Sorri imediatamente.
Adamastor.
Rudi.
Meus irmãos.
Os dois cresceram.
Fortes.
Inteligentes.
E extremamente problemáticos.
Adamastor cruzou os braços.
— Dário... por que está aqui sozinho?
Olhei para ele.
— Porque gosto de paz.
Rudi riu.
— Ou será que finalmente cansou das suas admiradoras?
Balancei a cabeça.
— Vocês não desistem de implicar comigo.
Os dois riram.
Era bom vê-los assim.
Felizes.
Depois de tudo o que enfrentamos, eles ainda conseguiam sorrir.
— O que foi dessa vez, meus pequenos lobos?
Os dois fizeram careta ao mesmo tempo.
— Não chama a gente assim! — responderam em coro.
Comecei a rir.
— Vocês nunca vão deixar de ser meus irmãos mais novos.
Adamastor suspirou.
— Um dia vamos arrancar esse apelido de você.
— Boa sorte tentando.
O clima leve desapareceu quando percebi que eles trocaram um olhar preocupado.
Havia algo errado.
Cruzei os braços.
— Falem.
Os dois permaneceram em silêncio.
— Vocês aprontaram alguma coisa?
Adamastor ergueu as mãos.
— Não!
Rudi confirmou rapidamente.
— Dessa vez não.
— Então por que esse suspense?
Eles respiraram fundo.
Adamastor tomou coragem.
— Queremos viver entre os humanos.
Fiquei imóvel.
Por alguns segundos achei que tivesse ouvido errado.
— O quê?
Rudi deu um passo à frente.
— Não para abandonar a alcateia.
Só queremos conhecer o mundo.
Estudar.
Fazer faculdade.
Ter amigos.
Ir a festas.
Conhecer cidades.
Ter uma vida parecida com a deles.
Meu lobo imediatamente rejeitou aquela ideia.
Era um absurdo.
Levantei lentamente.
— Vocês enlouqueceram?
Os dois permaneceram firmes.
— Sabem quem são os humanos?
— Sabem o que fizeram com nossos pais?
— Sabem quantos lobos morreram por confiar neles?
Adamastor abaixou a cabeça por um instante.
— Sabemos.
— Então por que insistem nisso?
Rudi respondeu com sinceridade.
— Porque não queremos viver escondidos para sempre.
O silêncio voltou a tomar conta da floresta.
O vento balançava as árvores.
Meu coração dizia uma coisa.
Meu instinto de alfa dizia outra.
Eu havia prometido proteger meus irmãos.
Mas talvez...
Protegê-los significasse permitir que descobrissem o próprio caminho.
Mesmo que esse caminho nos levasse novamente para perto dos humanos.
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