Sr. Regnante

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Serena Light · Concluído · 91.1k Palavras

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Introdução

Quando você é o chefe mais respeitado da Máfia Italiana, não pode deixar que o mundo saiba da sua existência ou de qualquer laço pessoal que possa ter. Caso contrário, coisas ruins tendem a acontecer, e esse homem aprendeu essa lição da pior maneira. Recusando-se a permitir que alguém ultrapasse seu exterior frio.
Isso não impediu a história deles.
Eles não deveriam se encontrar da maneira que se encontraram.
Afinal, ela era apenas uma estudante universitária e ele era um fantasma.
Inexistente, um boato, uma história que você conta para seus filhos à noite.
Mas quando as circunstâncias mais imprevistas fazem seus caminhos se cruzarem, não uma, não duas, mas três vezes—um encontro que termina com a promessa de evitar um ao outro. Eles não têm escolha a não ser reconhecer que precisam se manter afastados antes que um deles se machuque.
E é exatamente isso que acontece.
Isso causa outro encontro entre os dois, mas desta vez com uma promessa de segurança e proteção, porque ele deve a ela sua vida.

Capítulo 1

A luz do sol toscano banhava os pedestres tocando a vida. Sentados em cafés ao ar livre, conversando lado a lado, todos aproveitando o tempo bom.

O inverno estava chegando, e a primeira neve ainda não tinha caído, dando às pessoas a chance de curtir os últimos dias agradáveis antes de se renderem ao isolamento do aquecimento central. Aproveitando isso, todo mundo tentava tirar o máximo daquele tempo.

Uma garota, de cabelo castanho-claro e vestido florido, juntou suas coisas antes de ir até o carro. Ela tinha acabado de afivelar o cinto quando a porta do passageiro escancarou de repente; fazendo-a se assustar e soltar um grito quando um homem se jogou no banco ao lado.

— Dirige! — o homem gemeu, e tudo o que ela conseguiu fazer foi encarar o estado dele.

O cabelo escuro estava grudado na testa, empapado, e os olhos dele corriam de um lado para o outro. As duas mãos estavam sujas de sangue, pressionando um ferimento no abdômen e segurando uma arma preta.

— Porra, dirige! — ele berrou de novo, e ela entrou em ação. Pisou no acelerador, guiando às cegas como uma louca, como se a vida dela dependesse disso.

E talvez dependesse mesmo.

— Rodovia. Agora — ele resmungou entre os dentes cerrados e jogou a cabeça para trás, os olhos bem fechados, sangrando no estofado. O sangue atravessava a camisa e se acumulava no colo dele. A bile subiu na garganta da garota, e ela soube que precisava fazer alguma coisa antes que ele morresse no carro dela — e explicar a presença de um cadáver seria um problema completamente diferente.

— Deixa eu te ajudar. — A voz dela tremeu enquanto ela dirigia na direção da rodovia, conferindo os retrovisores e vendo um trecho de estrada deserto atrás deles.

— Só me leva... pra rodovia.

— A rodovia fica a trinta minutos daqui, mesmo nessa velocidade, e você vai morrer de hemorragia se não deixar eu estancar o sangramento — ela explicou, enquanto ele semicerrava os olhos para ela. — Eu sou estudante de medicina. Por favor, deixa eu te ajudar.

— Por quê? Pelo que eu sei... pelo que eu sei... você pode ser uma deles.

— Quem tá com a arma é você, senhor. Me diz você quem está em desvantagem.

O desconhecido se calou, fechando os olhos contra a dor. Um gemido escapou dos lábios dele, e ela percebeu que a arma estava tremendo.

— Tá! Tá! — ele reclamou, se contorcendo no banco. — Só anda logo.

Ela encostou no acostamento, saiu do carro e foi até a parte de trás, onde pegou um kit de primeiros socorros. Erguendo as mãos, mostrou o kit antes de se aproximar e abrir a porta, encontrando o homem tremendo, com a arma apontada para ela, à beira de entrar em choque.

— Eu não... não vou correr... nenhum, nenhum risco.

— Tudo bem. — Ela assentiu, compreendendo, e se agachou diante dele, desabotoando a camisa branca manchada. Pediu desculpas quando ele fez uma careta de dor. O tremor dele se intensificou quando ela começou a limpar o ferimento para enxergar melhor, os sentidos dela entrando em alerta máximo, sabendo o que aquilo significava.

— Eu preciso que você fale comigo pra não entrar em choque — ela explicou, examinando a lesão. — Qual é o seu nome? Eu sou a Rosalie.

— Arcangelo.

— Arcangelo, você consegue me dizer se tem alguém esperando por você em casa? Família? Amigos?

— Um sobrinho e uma sobrinha... e a mi-mi-minha irmã...

— Tá, isso é bom. Tem gente esperando você voltar. Você consegue me contar sobre eles?

—Meu sobrinho... s-sobrinho... —ele gaguejou enquanto Rosalie fazia um curativo com a gaze no ferimento—. E-ele tem seis anos... n-não... não tem ninguém...

Ela mal prestou atenção nas palavras dele e conferiu a gaze, vendo que, por ora, tinha conseguido estancar o sangramento. A respiração de Arcangelo se acalmou.

—Tudo bem, Arcangelo? Eu preciso que você me diga pra onde eu tenho que te levar.

—Pela... pela estrada... você vai saber.

—Tá —Rosalie assentiu, sem entender aquele jeito enigmático de falar, antes de pegar o xale no banco de trás e cobri-lo com cuidado. Ajudou-o a se ajeitar de volta no assento, reclinou um pouco e então voltou ao volante, retomando o caminho.

Ela saiu do meio-fio e seguiu em silêncio, enquanto Rosalie lançava olhares para a silhueta de Arcangelo. Ele estava ali, com a arma segurada de forma frouxa na mão, o olhar voltado para a paisagem passando.

—Por que você me ajudou? —ele perguntou, rouco. Rosalie olhou para ele por um instante antes de voltar os olhos para a estrada—. Você podia ter me deixado morrer; afinal, eu tô te ameaçando com uma arma.

—Eu sei —ela confirmou—. Mas isso significaria que você teria morrido dentro do meu carro, e eu não preciso de uma coisa dessas na minha consciência.

—Mesmo assim, eu acho que você não devia ter me ajudado.

—Mas eu também não ia conseguir te deixar morrer. Eu não quero viver com a realidade de ter tido a chance de salvar alguém e, em vez disso, decidir agir por egoísmo e deixar esse alguém morrer.

Arcangelo não respondeu. Foi então que Rosalie avistou dois SUVs pretos parados no meio da estrada, com homens de terno de pé, armas firmes nas mãos. E naquele momento ela soube: ali era o fim da linha pra ela.

Ela parou o carro e levantou as mãos quando dois homens se aproximaram. Outros foram direto até Arcangelo, que tentava sair, até que um deles abriu a porta e os demais o ajudaram a descer.

—Cuidado. A gaze não vai segurar por muito tempo —Rosalie avisou aos homens, enquanto a puxavam para fora do carro. Mantiveram-na sob a mira de armas; as pernas dela cederam.

Engolindo em seco, Rosalie fechou os olhos e se encolheu ao ouvir o clique inconfundível da trava sendo destravada.

—Deixem ela —Arcangelo disse, por cima do ombro, enquanto o levavam em direção aos carros.

—Sim, chefe —os homens assentiram e se afastaram, fazendo os olhos de Rosalie se abrirem de supetão.

Arcangelo cruzou o olhar com o dela mais uma vez, deixando o recado alto e claro.

Abra a boca e você morre.”

Rosalie viu os carros irem embora, deixando uma trilha de fumaça para trás.

Ela acompanhou os veículos pretos diminuindo ao longe, enquanto o corpo inteiro tremia. As forças a abandonaram e ela desabou de joelhos, um soluço assustado sacudindo seu peito. Encarou as próprias mãos, cobertas de sangue, e tentou controlar a respiração.

Rosalie nem sabia quanto tempo ficou sentada naquela estrada de cascalho. Quando enfim enxugou as lágrimas e o sangue seco nas mãos, cambaleou até ficar de pé e desabou no banco do carro.

Quando se acomodou, ligou o rádio para acalmar os nervos à flor da pele, decidida a tomar um banho assim que chegasse em casa. O trajeto já era longo —e pareceu ainda mais com a pressa desesperada que ela sentia de voltar. No instante em que estacionou, Rosalie pegou suas coisas, escondendo as mãos entre as dobras dos livros, e entrou às pressas, de cabeça baixa.

Ao esbarrar sem querer em alguém, ela se desculpou às pressas e saiu correndo para longe dele, entrando no elevador e apertando o botão do sexto andar. Ela só queria ir para casa, tomar um banho e chorar na cama.

A programação do dia era bem simples: estudar para as provas que estavam chegando. Em nenhum momento dos planos dela entrava a possibilidade de um desconhecido ferido apontar uma arma para ela.

O medo voltou a engolir os sentidos dela com a lembrança do que tinha acontecido, as pupilas se dilatando e a respiração ficando curta. Engolindo o nó na garganta, ela tentou se acalmar.

*Inspira. Expira.

Inspira.

Expira.*

O ding do elevador a tirou dos exercícios de respiração. Soltando um suspiro de alívio, ela pegou as chaves enquanto andava pelo corredor.

Ao destrancar a porta, quase desabou para dentro e deixou todas as coisas caírem no chão. Virando de volta para a porta, ela trancou rapidamente, ainda colocando a corrente e encostando a testa na madeira, soltando um suspiro aliviado por estar de novo dentro dos limites da familiaridade e da certeza.

“Banho.” Ela murmurou para si mesma, enxugando as lágrimas. “Eu preciso de um banho.”

Soltando um ar trêmulo, ela se virou, pronta para pegar os livros, quando uma mão agarrou o ombro dela com brutalidade, fazendo-a gritar e engasgar com o próprio fôlego. Rosalie foi jogada contra a parede, um gemido de dor escapando enquanto uma mão se fechava em torno do pescoço dela e a outra tapava sua boca, impedindo qualquer som.

Um par de olhos verde-maçã a encarou de cima enquanto ela se debatia no aperto dele; a resistência só fez a mão dele se fechar ainda mais na garganta dela.

“O que você sabe?” ele rosnou baixo, enquanto as lágrimas desciam pelo rosto dela, as tentativas de lutar sendo inúteis.

“N-nada”, ela conseguiu dizer, sufocada, em pânico. “Eu não sei de nada.”

“Não minta pra mim, puttana.”

“P-por favor... eu não sei de nada!” ela soluçou, presa no aperto dele.

“Mentira!” Ele rosnou e aumentou a pressão, bloqueando a passagem de ar. Os pés dela saíram do chão enquanto ela tentava, desesperada, arrancar as mãos dele. Ele a observava com olhos frios, firmes, sem vacilar, e ela sentiu a consciência escapando por entre os dedos.

O aperto no pescoço dela desapareceu de repente, e ela desabou no chão num monte, tossindo sem parar, enquanto o homem acima dela alcançava a porta, saía e a batia atrás de si.

Rosalie ficou caída no chão, uma mão no pescoço, tossindo para conseguir respirar, curvada e tendo ânsias secas, com soluços atravessando o corpo.

Ela tentou respirar fundo para se recompor, mas, no esforço de recuperar o controle, os olhos se fecharam e o corpo inteiro dela relaxou contra o assoalho de madeira.

Rosalie acordou com o som do celular tocando. Gemeu contra o piso, se ergueu devagar e esfregou os olhos antes de remexer na bolsa à procura do aparelho. Desligando o alarme, ela olhou ao redor enquanto os acontecimentos de ontem voltavam, mais uma vez.

Engolindo em seco, ela fez uma careta com a dor que atravessou o corpo e então se levantou cambaleando.

Atordoada e zonza, Rosalie entrou no chuveiro, evitando olhar no espelho. Quando saiu, passou a mão no espelho levemente embaçado. Um grito de desespero ficou preso na garganta dela.

O pescoço dela estava todo roxo, azul-escuro, manchado por todos os lados. A pele doía ao toque e latejava sempre que ela tentava falar ou fazer qualquer som. Os olhos estavam injetados de sangue e o rosto, empolado e cheio de manchas.

Naquele momento, Rosalie decidiu faltar às aulas do dia e avisar no trabalho que estava doente. Ela não queria passar por tudo o que aconteceu ontem nunca mais.

Depois de trocar de roupa e colocar algo confortável, tentou comer, mas acabou vomitando. No fim, decidiu apenas tomar um analgésico e dormir.

Rosalie poderia ter dormido o dia inteiro, mas foi acordada pela vibração do celular. Trinta e seis ligações perdidas. Todas de pessoas diferentes. Depois de responder às mensagens com a desculpa de que estava com gripe, ela desabou de volta na cama. Os olhos quase se fechando na mesma hora, o sono a puxou de novo; os efeitos do remédio ainda rondavam o corpo.

Sua idiota!” Ela ouviu alguém sibilar no sonho, uma voz grave, escura e aveludada falando por cima dela. “Olha o que você fez!

Depois daquele sussurro silvado, veio o toque mais suave no pescoço dela.

Eu não tinha como ter certeza!” Uma nova voz sussurrou de volta.

Eu devia te matar, Vincent.” A primeira voz retrucou com uma calma assustadora. “Ela salvou a minha vida e você tenta matar ela? A garota já passou por trauma demais. E, se ela for inteligente, sabe que não deve abrir a boca. Não só porque ela não conhece as pessoas erradas, mas também porque ninguém acreditaria nela. Eu sou um fantasma, lembra? Eu não existo no mundo lá fora. Eu não passo de um boato.

No sonho, Rosalie se remexeu, tentando encontrar de onde vinham as vozes, mas não viu nada além de escuridão.

Vamos.” A voz falou por cima dela enquanto ela procurava desesperada, querendo saber por que fizeram aquilo com ela e o que ela poderia ter feito para merecer que aquele trauma caísse sobre si.

Ela precisava saber por que ela.

Ela quis gritar, mas a garganta doía demais para sequer formar uma palavra coerente. A dor aumentou de repente e a arrancou do sono quando ela engasgou numa tosse, encolhida na cama, tentando aliviar a queimação.

Quando a crise de tosse passou, ela ficou encarando o teto, lágrimas escorrendo, porque nunca quis que algo assim acontecesse. Os dedos tremiam quando ela levou a mão ao pescoço, jurando que aquele toque tinha sido real — mas sendo apenas fruto da imaginação dela, por causa do homem que ela tinha salvado ontem.

Antacio? Antonio? Angelo?

Ela nem conseguia lembrar o nome dele direito e ainda assim estava sonhando com ele.

Rosalie estendeu a mão até a mesinha de cabeceira para pegar o celular, mas algo amassado se encolheu sob a palma dela.

Ela se virou para o lado e encontrou uma folha. Não se lembrava de ter deixado um recado para si mesma. Erguendo o papel acima do rosto, ela soube na mesma hora que não era a letra dela — as palavras eram elegantes demais, numa cursiva perfeita demais para ser sua.

Sopa quente ajuda quando você foi estrangulada. Deve abrir as vias respiratórias o suficiente para tornar a respiração suportável. Além disso, você deveria comprar pomada de arnica para os hematomas.

-AR

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**

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**

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